
O roupo



Me lembro bem da primeira vez. Eu terminei o banho, era de  manh,  umas
11, sbado. Uma cala moletom, tnis, camiseta e, por  cima,  o  roupo.
Roupo branco, mangas largas, abaixo do joelho, cinto  amarrado.  Branco
como bundinha de nen. Na altura do peito esquerdo  o  logotipo  do  So
Pedro, Spa-Mdico. Me sentia bem, muito bem, com o roupo.

Foi l, no spa, que eu comecei a usar roupo. Gostei. O roupo passou  a
ser, para mim,  uma  espcie  de  smbolo  da  liberdade,  uma  ajuda  
auto-estima. Alm do conforto, denotava limpeza, banho  tomado,  pureza,
estar de bem com a vida. Branco. Branquinho.

Pois ento era sbado e l estava eu aqui na  frente  do  computador,  a
jogar pacincia, tentando uma  idia.  Reinaldo  e  Mateus  me  ligam  e
convidam para tomar umas antes da feijoada na casa do Mateus.

Quando ia tirar o roupo, resolvi no  tirar.  Estava  gostoso,  cmodo,
macio. O clima estava para roupo. Olhei pela janela.  Era  um  cu  que
pedia, implorava roupo. Qual  o problema de ir de roupo at a casa de
um amigo? Tirei a  camiseta.  S  de  roupo.  No  sinal,  uma  senhora,
perussima, me olhou meio de lado, balanou a cabea oxigenada. E da? A
garotinha que ia me pedir uma moedinha at desistiu. Quando  cheguei,  o
Reinaldo e o Mateus se entreolharam. Um disse:

Eu sabia que esse negcio de parar de beber no ia dar certo.

O outro:

Quer dar, fala logo.

Defendi o roupo e o uso dele:

Qual  o problema? Qual  o  escndalo?  Estou  feio?  Estou  indecente?
Estou atentando contra o pudor, a moral e os bons  costumes?  Me  digam,
qual  o problema?

Depois chegaram as esposas Marta e Sylvia e os comentrios foram mais ou
menos iguais. S a Maria, minha afilhada, filha do Mateus e  da  Sylvia,
que gostou:

Legal, meu.

A partir desse dia resolvi assumir o roupo como uso dirio.  Para  quem
olhava enviesado, ia dando as minhas explicaes:

Olha o conforto. Olha  o  tamanho  dos  bolsos.  Cabe  tudo,  ouve-se  o
celular. Olha as mangas. Posso usar curta e comprida. O peito: aberto  e
fechado. Quer saber de uma coisa?  o traje ideal  para  o  outono  numa
cidade como So Paulo.

Meu filho pedia para eu no chegar da rua de roupo quando tinha  amigos
dele em casa. Mas como  que eu ia saber se tinha amigo  dele  em  casa,
quando voltava? Minha filha, de Londres, manda um e-mail: verdade, pai?

Comprei mais uns trs ou quatro. Comecei a usar roupo o dia inteiro.

At que fui ao cinema. De  roupo.  O  porteiro  no  queria  me  deixar
entrar.  proibido entrar de roupo. Impossvel ter uma lei  dessas,  eu
disse. O roupo est sujo? Qual  o problema?  O  senhor  h  de  convir
Chama o gerente.

Sou jornalista. Vou fazer um escndalo. Vou rodar o roupo! Olha  aquele
cara de bermuda. Bermuda pode? Onde  que  est  escrito  que  no  pode
entrar no cinema de roupo? Quero ver a lei. A lei!

O senhor h de convir

No vou convir porra nenhuma!

Entrei. A sesso no havia comeado. Todo mundo  olhando  para  mim.  Ou
melhor, para ele, o meu inocente roupo.

No jogo de futebol no teve problemas. Mas, no restaurante,  deu  galho.
De novo o gerente, aquela pequena autoridade. As  pessoas  que  entravam
olhavam a discusso ali na porta.

O problema  que vai todo mundo ficar olhando para o senhor.

E da? A Adriane Galisteu t l dentro e t todo mundo olhando para ela.
E ela no est de roupo. E daqui  d  para  ver  o  peito  dela.  Muito
bonito, por sinal. Chama o chefe do gerente. Chama o seu Rubayat!

Deixaram entrar. Os garons davam risinhos disfarados. Eu l firme,  de
roupo.

Tive que ir dar uma entrevista no J. No sobre o roupo,  mas  sobre  o
meu novo livro (Minhas vidas passadas, j   venda  nas  boas  casas  do
ramo). Fui de roupo, claro. Claro que a entrevista foi muito mais sobre
o roupo do que sobre o livro. O J at sugeriu  que  eu  escrevesse  um
livro novo: Os anjos de roupo.

Agora, alm da famlia, dos amigos, dos vizinhos,  o  Brasil  inteiro  a
comentar o fato de eu usar roupo. Foi a que o fato se deu.  Outro  dia
fui ao teatro e vi: tinha um sujeito de roupo. E no era personagem  da
pea,  no.  Pblico  e  notrio.  Nos  cumprimentamos,  cmplices.  Uma
delcia, foi o comentrio dele.

A comecei a notar o aumento de pessoas de roupo nas ruas,  nos  bares.
Eles conversavam entre eles. O quente era usar roupo roubado  de  hotel
ou spa, com logotipo.

At que, outro dia, entrei num restaurante finssimo e tinha dois  iupes
no balco a tomar vodca. Os dois de roupo.

Um dizia para o outro:

Francs. Hotel George V.

E o outro:

Mas xadrez, como o meu, voc nunca tinha visto, n?

Voltei para casa e pendurei o meu roupo. Nunca mais usei roupo.

Odeio andar na moda.

" revista Isto  de 3 de Junho de 1998 "
