A face bandida 

O uso do computador para ameaas, pornografia  e  fraudes
milionrias preocupa a polcia de todo o planeta

"Fiquei apavorada. Passei a ter medo de todos os que olhavam  para  mim.
Dobrei as trancas de minha casa e entrei em pnico. Foi horrvel"  Maria
Cristina Poli, jornalista

MRIO SIMAS FILHO

O diretor do FBI,  Louis  Freeh, desembarcou  em  Braslia,  na  segunda
semana de  maio,  trazendo  na  valise  duas  misses.  A  primeira  era
finalizar os entendimentos para a instalao de uma agncia  da  polcia
americana no Brasil. A outra, transmitir  ao  Ministrio  da  Justia  a
preocupao do FBI com o que Freeh chama de crimes  de  computador.  So
delitos diversos que variam de ameaas a fraudes milionrias. Praticados
via Internet, esses crimes acontecem em todo o planeta  simultaneamente.
Em uma reunio com um restrito grupo de  14  policiais  brasileiros  com
curso de formao no FBI, Freeh alertou que a  maioria  dos  pases  no
est preparada para enfrentar os criminosos digitais. O Brasil no  foge
a essa regra. O Pas conta com 427  provedores  de  acesso    Internet,
cerca de 1,5 milho de pessoas plugadas na rede mundial de dados  e  uma
polcia que ainda usa a velha mquina de escrever para redigir  boletins
de ocorrncia.

"Para reprimir o criminoso digital no  se  precisa  de  metralhadoras",
afirma o delegado paulista Mauro Marcelo de Lima e Silva, que  trocou  o
revlver por um lap-top. Em 28 de agosto do  ano  passado,  ele  prendeu
Jair  Francisco  Pinto,  um  analista  de  sistemas   que    atormentava
jornalistas com ameaas de estupro,  atravs  da  Internet.  Para  Maria
Cristina Poli, apresentadora do programa  Vitrine  na  TV  Cultura,  ele
enviou 105 mensagens iguais, cada uma  com  durao  de  11,9  segundos.
Nessas mensagens, ele se dizia "louco" pela jornalista e usava exatas 15
linhas para descrever, de forma bizarra, as cenas de sexo  que  ameaava
protagonizar com ela.

"Fiquei apavorada. As frases finais da mensagem (leia fac-smile  acima)
me colocaram em pnico", lembra Maria  Cristina.  "Dobrei  o  nmero  de
trancas nas portas de casa e passei a temer todos os  que  olhavam  para
mim. Um dia estava estacionando o carro na porta de uma  farmcia  e  um
sujeito bateu no vidro para pedir que eu parasse um pouco  mais  para  a
frente. Comecei a gritar e a  chorar  desesperadamente.  Foi  horrvel."
Apavorada, a jornalista procurou a polcia. "Fizemos o  caminho  inverso
da mensagem, utilizando  programas  especficos  de  busca",  explica  o
delegado Lima e Silva. Pelas datas e horrios das mensagens,  a  polcia
conseguiu localizar o emitente, que usava  um  programa  conhecido  como
Unabomber para copiar os textos e alterar sua assinatura.

Uma vez identificado  o  autor  das  mensagens,  o  delegado  prendeu  o
analista de sistemas e apreendeu seu computador.  Ao  contrrio  do  que
chegou a imaginar a  jornalista,  Jair  Francisco  Pinto  no    nenhum
adolescente. Ele tem 38 anos,  casado e pai de  duas  meninas.  De  seu
computador vieram novas surpresas. Na memria estavam registradas outras
430 mensagens, com o mesmo teor, encaminhadas para a jornalista  Barbara
Gncia, colunista da  Folha  de  S.Paulo.  "Estou  acostumada  a  sofrer
ameaas.  terrvel. Mas acho que o rapaz teve  uma  punio  exemplar",
diz Barbara. O  promotor  Paulo  Cornachione  enquadrou  o  analista  de
sistemas no crime de ameaa e em novembro ele foi condenado a  uma  pena
alternativa. Durante um ano teria que ensinar informtica na academia de
Polcia de So Paulo. Como o diretor da academia no confia os  arquivos
da instituio a ele, o analista tem feito trabalhos de digitao.

O mdico R.M., 37 anos, tambm no   nenhum  adolescente.  No  entanto,
teve mais sorte. Ele utilizou a Internet para denegrir a imagem  de  sua
colega M.C.R. Poucas semanas antes de seu casamento, em novembro do  ano
passado, ela comeou a receber telefonemas de  pessoas  interessadas  em
conhec-la para relaes sexuais. Em uma dessas ligaes, a mdica ficou
sabendo que algum havia colocado seu nome e telefone em uma galeria  de
bate-papo na Internet. Na falsa mensagem, ela se oferecia para "transas"
das mais variadas espcies. A  polcia  conseguiu  chegar  ao  autor  da
mensagem: o mdico R.M., que trabalhava  na  mesma  clnica  de  M.C.R.,
exatamente na sala ao lado.  "Os  dois  fizeram  um  acordo.  Ele  pediu
demisso da clnica e ela no prestou queixa formal   polcia",  diz  o
delegado Lima e Silva. M.C.R. pediu para no ter  seu  nome  revelado  e
tambm para manter o antigo colega no anonimato.

"Para enfrentar os criminosos digitais no precisamos de  metralhadoras.
Basta computador e um pouco de conhecimento" Mauro  Marcelo  de  Lima  e
Silva, delegado de polcia

Apologia ao crime, um delito previsto no Cdigo Penal, com pena de  seis
meses  de  priso,  tambm  tem  sido  comum  na  Internet.  "So  sites
aparentemente inofensivos que partem de vrios lugares do mundo, mas que
lidos por crianas podem ter um efeito perverso", avaliou o  diretor  do
FBI, Louis Freeh, no encontro que manteve com policiais  brasileiros  em
Braslia. At dois meses atrs, uma pgina chamada Eriks  Page  ensinava
algumas rpidas  e  eficientes  maneiras  de  como  destruir  um  carro,
estourar o banheiro da escola e fabricar bombas caseiras. O rastreamento
da polcia chegou a um garoto de 14 anos, que difundia suas maldades  do
computador instalado em sua casa, em Porto Alegre  (RS)  e  o  inqurito
ser encaminhado ao juiz da Infncia e Juventude da cidade.

Tanto no caso das jornalistas como no caso da mdica e do  garoto  E.B.,
s foi possvel chegar  aos  autores  das  bandidagens  digitais  com  a
colaborao dos provedores de acesso  Internet. O problema    que  nem
todos os provedores adotam a mesma  postura.  No  Brasil,  a  Associao
Brasileira de Provedores Internet (Abranet) tem se  esforado  em  criar
mecanismos que inibam a divulgao de sites que possam  se  caracterizar
como crime, principalmente no que se refere  pornografia infantil. "No
podemos defender a existncia de censura  na  Internet,  mas    preciso
buscar algumas  solues  para  evitar  abusos",  diz  o  presidente  da
Abranet, Antnio Tavares. J  que  no  Brasil,  assim  como  em  todo  o
planeta, a maior incidncia de crimes de computador remete  pornografia
infantil, em janeiro,  a  Abranet  colocou  no  ar  a  campanha  "No  
pornografia infantil." Segundo Tavares, aps a divulgao  da  campanha,
surgiram cerca de 20 denncias  apontando  sites  no  s  com  contedo
pornogrfico envolvendo menores como tambm de  pginas  que  incentivam
atos de vandalismo. "Temos procurado gravar esses sites, depois  pedimos
ao provedor que o retire do ar  e  por  fim  avisamos  a  polcia",  diz
Tavares. "Mas h resistncia de alguns provedores."  "Em  nossos  sites,
temos a preocupao de no contemplar a violncia, mas sabemos  que  nem
todos pensam assim", confirma Sandra Pecis,  editora-chefe  do  provedor
Zaz.

Uma das denncias recebidas  pela  Abranet  dizia  respeito  a  um  site
chamado Filipe Vieira.  Em  suas  pginas  eram  veiculadas  fotografias
pornogrficas envolvendo menores, receitas de como fazer disquetes-bomba
para destruir computadores e como estragar telefones pblicos sem deixar
vestgios. O site saiu do ar e  a  polcia  encaminhou  as  receitas  ao
Instituto de Criminalstica para comprovar se elas  de  fato  funcionam,
mas  o  provedor  Elgica,  de  Pernambuco,  se  recusou  a  fornecer  a
identificao do dono da pgina. "Esta empresa tem o dever  profissional
de guardar absoluto sigilo a  respeito  dos  dados  cadastrais  de  seus
clientes", disse Carlos Monteiro de Arajo, advogado da Elgica. "Muitos
insistem em tratar essa questo  como  se  fosse  sigilo  bancrio,  mas
achamos que o caminho pode ser outro", discorda Tavares.

 evidente que mensagens via Internet contendo ameaas  pessoais,  sites
ensinando como fazer bombas e cenas de pornografia  infantil  devem  ser
objeto de preocupao. Mas os crimes de computador que mais incomodam  o
FBI so as fraudes de natureza financeira. O receio de  uma  publicidade
negativa,  que  implicaria  quebra  de    confiabilidade    junto    aos
consumidores, tem feito com que muitas empresas lesadas  por  criminosos
digitais  nem  sequer  recorram    polcia.  Uma  pesquisa  feita  pela
Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostra que 96,6%  das  150
maiores empresas americanas j foram vtima de  fraudes  com  carto  de
crdito pelo sistema on-line. No entanto, o FBI no  tomou  conhecimento
da maior parte dos casos. No Brasil no   diferente.  "Sabe-se  que  h
vrios casos de fraude, mas nenhuma empresa revela  essas  coisas",  diz
Tavares, da Abranet. Uma administradora de carto de crdito com sede em
So Paulo, entre julho de 1997 e maro deste ano, teve  prejuzo  de  R$
930 mil. So compras feitas no Exterior atravs da  Internet,  debitadas
em cartes de terceiros. A  administradora  assumiu  o  prejuzo  e  no
recorreu  polcia. Contratou uma empresa de investigao  internacional
e descobriu que algum usava um programa capaz de decodificar as  senhas
dos cartes  enviando  para  uma  das  centrais  da  administradora  uma
infinidade de combinaes de quatro dgitos em poucos  segundos.  Assim,
descobria a senha do carto.  Hoje,  a  administradora  garante  que  j
desenvolveu um programa de segurana para evitar esse  tipo  de  fraude.
Para acabar com o problema, porm,  preciso mais que  isso.  A  receita
fornecida pelo FBI parece vlida.  Segundo  Freeh,  "  preciso  que  os
governos equipem as polcias e os policiais troquem a  truculncia  pela
inteligncia".

"Revista Isto  - 3 de Junho de 1998"
Colaborou Lu Gomes
