A COMUNICAÇÃO E A RELAÇÃO INTERPESSOAL COM O ALUNO DEFICIENTE VISUAL
APRESENTAÇÃO
A AMAC é uma entidade de cegos, que
visa promover e realizar a Educação, Reabilitação e Profissionalização de todas
as pessoas deficientes da visão, integrando-os à sociedade. Evidenciando a
importância de oportunizar ao deficiente, mão-de-obra qualificada, para que o
mesmo possa competir no mercado de trabalho. A AMAC se propõe a prestar
atendimento especializado, cursos profissionalizantes e encaminhamento de profissionais
aptos para o mercado de trabalho, através da criação de um Centro de
Reabilitação, Profissionalização e convivência – CRPC.
Dessa forma, a pessoa Portadora de
deficiência Visual terá oportunidade de desfrutar de uma vida mais próxima da
“normalidade” possível, torna-se útil a si mesmo, a família e a comunidade.
A visão é o mais importante canal de
relacionamento do indivíduo com o mundo exterior. A cegueira sensorial foi
sempre tratada, através dos séculos, com medo, superstição e ignorância. Na
Idade Média, chegava-se a considerar a cegueira como um castigo dos céus.
Helen Keller
abriu os olhos do mundo pra a imensa capacidade e disponibilidade que o
deficiente visual tem de ser útil à sociedade e interagir com o meio.
Cabe à sociedade cooperar e dar
oportunidade para que esses indivíduos, que têm limitação em seu relacionamento
com o mundo, possam desenvolver e usufruir de toda a
sua capacidade física e mental.
Pretendemos, com estas informações,
esclarecer aos educadores, aos familiares e à sociedade em geral alguns tópicos
sobre a deficiência visual, suas capacidades e limitações, ampliando nossos
horizontes no relacionamento humano.
1- Considerações Gerais:
·
Não se refira à cegueira como desgraça. Ela
pode ser assim encarada logo após a perda da visão, mas a orientação adequada,
a educação especial, a reabilitação e a profissionalização conseguem minimizar
os seus efeitos.
·
A cegueira não é contagiosa, razão pela qual
cumprimente seu vizinho, conhecido ou amigo cego, identificando-se, pois ele
não o enxerga.
·
A cegueira não restringe o relacionamento com
as pessoas nem com o meio ambiente, desde que as pessoas com as quais o cego conviva não lhe omitam ou encubram fatos e
acontecimentos, o que lhe trará muita segurança ao constatar que foi enganado.
·
O cego não enxerga a expressão fisionômica e os
gestos das pessoas. Por este motivo fale sobre seus sentimentos e emoções, para
que haja um bom relacionamento.
·
Não trate a pessoa como um ser diferente porque
ela não pode enxergar. Saiba que ela está sempre interessada nos
acontecimentos, nas notícias, nas novidades, na VIDA.
·
O cego não tem a visão das imagens que se
sucedem na TV, no cinema, no teatro. Quando ele perguntar, descreva a cena, a
ação e não os ruídos e diálogos, pois estes ele escuta muito bem.
·
O cego organiza seu dinheiro com o auxílio de
alguém de sua confiança que enxerga.
·
Aqueles que se aproximam o dinheiro no rosto
são pessoas com visão subnormal, que assim conseguem identificá-lo.
·
Não generalize aspectos positivos ou negativos
de uma pessoa cega que você conheça, estendendo-se a outros cegos. Não se
esqueça de que a natureza dotou a todos os seres de diferenças individuais mais
ou menos acentuadas. O que os cegos têm em comum é a cegueira, porque cada um
tem sua própria maneira de ser.
·
Procure não limitar as pessoas cegas mais do
que a própria cegueira o faz, impedindo-as de realizar o que elas sabem, e
devem fazer sozinhas.
·
Ao se dirigir a uma pessoa cega chame-a pelo
seu nome. Chamá-la de cego ou ceguinho é falta elementar de educação podendo
mesmo constituir ofensa chamar-se alguém pela palavra designativa de sua
deficiência física, moral ou intelectual.
·
A pessoa cega não necessita de piedade e sim de
compreensão, oportunidade, valorização e respeito como qualquer pessoa.
Mostrar-lhe exagerada solidariedade não à ajuda em nada.
·
A pessoa cega, pelo fato de não ver, não
significa que não ouça bem. Não fale com a pessoa cega como se ela fosse surda.
·
Ao procurar saber o que ela deseja, pergunte o
que ela deseja, pergunte a ela e não ao seu acompanhante.
·
O cego tem condições de consultar o relógio
(adaptado), discar o telefone ou assinar o nome, não havendo motivo para que se
exclame "maravilhoso", "extraordinário".
·
A pessoa cega não dispõe de "sexto
sentido", nem de "compensação da natureza". Isto são recursos
errôneos. O que há na pessoa cega é simples desenvolvimento de recursos
latentes que existe em todas as pessoas.
·
Conversando sobre a cegueira com quem não vê
use a palavra cego sem rodeios, sem precisar modificar a
linguagem para evitar a palavra ver e substituí-la por ouvir.
·
Ao ajudar a pessoa cega a sentar-se, basta
pôr-lhe a mão no espaldar ou no braço da cadeira, que isto indicará sua
posição, sem necessidade de segurá-lo pelos braços ou rodar com ele e puxá-lo
para a cadeira.
·
Cuide para não deixar nada no meio do caminho
por onde uma pessoa cega costuma passar.
·
Ao entrar no recinto ou dele sair, onde haja
uma pessoa cega, fale para anunciar sua presença e identificar-se.
·
Quando estiver conversando com uma pessoa cega,
necessitando afastar-se, comunique. Com isso você evitará a desagradável
situação de deixá-la falando sozinha, chamando atenção dos outros sobre si.
·
Ao encontrar-se com uma pessoa cega, ou
despedir-se dela, aperte-lhe a mão. O aperto de mão cordial substitui para ela
o sorriso amável.
·
Ao encontrar um cego que você conhece vá logo dizendo-lhe quem é, cumprimentando-o. Colocações como
"Sabe quem sou eu?"... "Veja se advinha quem está aqui... não vá
dizer que não está me conhecendo..." Só o faça se tiver realmente muita
intimidade com ele.
·
Apresente seu vizinho cego a todas as pessoas
presentes. Assim precedendo você facilitará a integração dele ao grupo.
·
Ao notar qualquer incorreção no vestuário de
uma pessoa cega comunique-lhe, para que ela não se veja na situação
desagradável de suscitar a piedade alheia.
·
Muitos cegos têm o hábito de ligar a luz, em
casa ou no escritório. Isso lhe permite acender a luz para os outros e, não
raro, ela própria prefere trabalhar com luz. Os que enxergam
pouco (visão subnormal) beneficiam-se com o uso da luz.
·
Ao dirigir-se ao cego para orientá-lo quanto ao
ambiente, diga-lhe: a sua direita, a sua esquerda, para trás, para frente, para
cima para baixo. Termos como aqui ou ali não lhe servem de referência.
·
Encaminhe bebês, crianças, adolescentes, ao
serviço de Educação Especial.
·
O uso de óculos escuro para os tem duas
finalidades de proteção do globo ocular e estética quando ele próprio preferir.
·
Quando se dispuser a ler para uma pessoa cega,
jornal, revista, etc., pergunte a ela o que deseja ser lido.
2. Na Residência:
·
Mudanças de móveis constantes prejudicam a
orientação e locomoção do cego. Ao necessitar fazê-lo, comunique-o para que ele
se reorganize.
·
Pequenos cuidados facilitarão a vida do
deficiente visual. Assim, as portas deverão ficar fechadas ou totalmente
abertas.
·
Portas entreabertas favorecem que o mesmo se
bata. Portinhas de armários aéreos bem como gavetas deverão estar sempre
fechadas; cadeiras fora do lugar e pisos engordurados e escorregadios são
perigosos.
·
Os objetos de uso comum deverão ficar sempre no
mesmo lugar, evitando assim cada vez que um cego necessite de um objeto,
(tesoura, pente, lixeira, etc.) tenha que perguntar onde se encontram.
·
Os objetos pessoais do cego devem ser mantidos
onde ele os colocou, pois assim saberá encontrá-los.
·
Na refeição, diga ao cego o que tem para comer
e quando houver varais pessoas à mesa pergunte a ele, pelo seu nome, o que ele
deseja.
·
O prato pode ser pensado como se fosse um
relógio e a comida distribuída segundo as horas. Assim, nas 12:00 horas, que
fica para o centro da mesa, será colocado, por exemplo, o feijão. Nas 3:00
horas, à direita do prato, o arroz, nas 6:00 horas, próximo ao peito do cego, a
carne, facilitando assim ser cortada por ele, e às 9:00 horas, à esquerda do
prato, a salada. Prato cheio complica a vida de qualquer pessoa.
·
O cego tem condições de usar garfo e faca, bem
como pratos raso, podendo sozinho cortar a carne em seu prato. Firmando a carne
com o garfo, com a faca situa o tamanho da carne e o pedaço a ser cortado.
·
Ao servir qualquer bebida não encha em demasia
o copo ou a xícara, alcançando-os na mão do cego para que ele possa situar-se
quanto a sua localização.
·
Não fique preocupado em orientar a colher ou o
garfo da pessoa cega para apanhar a comida no prato. Ela pode falhar algumas
vezes, mas acabará por comer tudo. Ser-lhe-á penoso ter lhe dizer
constantemente onde está o alimento.
·
Pequenas marcações em objetos de utilização do
cego poderão ajudá-lo a identificar, por exemplo, sua escova
de dentes, sua toalha de banho, as cores das latinhas de pasta de
sapatos, cor de roupas, as latas de mantimentos, etc. Estas poderão ser feitas
em Braille, com esparadrapo, botão, cordão, pontos de costura ou outros.
·
Objetos quebráveis (copos, garrafas térmicas,
vasos de plantas, etc.) deixados na beirada de mesas, pias, móveis ou pelo chão
constituem perigo para qualquer pessoa e obviamente perigo maior para o cego.
·
Mostre a seu hospede cego as principais
dependências de sua casa, a fim de que ele aprenda detalhes significativos e a
posição relativa dos cômodos, podendo, assim, locomover-se sozinho. Para
realizar essa tarefa devemos colocar o cego de costas para a porta de entrada e
dali, com auxilio, ele mesmo fará o reconhecimento à direita à esquerda, como é
cada peça e qual é a distribuição dos móveis.
3 - Na rua:
·
Ao encontrar uma pessoa cega na rua, pergunte
se ela necessita de ajuda, tal como: atravessar a rua, apanhar táxi ou ônibus,
localizar e entrar em uma loja, etc.
·
Ofereça auxilio à pessoa
cega que esteja querendo atravessar a rua ou tomar condução. Embora seu
oferecimento possa ser recusado, ou mal recebido, por algumas delas, esteja
certo de que a maioria lhe agradecerá o gesto.
·
O pedestre cego é muito mais observador que os
outros. Ele tem meios e modos de saber onde está e para onde vai, se precisar
estar contando os passos. Antes de sair de casa ele faz o que toda pessoa
deveria fazer: procura saber bem o caminho a seguir para chegar a seu destino.
Na primeira caminhada poderá errar um pouco, mas, depois raramente se enganará.
Saliências, depressões, quaisquer ruídos e odores característicos, tudo ele
observa para sua boa orientação. Nada é sobrenatural.
·
Em locais desconhecidos, a pessoa cega
necessita sempre de orientação, sobretudo para localizar a porta por onde
deseja entrar.
·
Não tenha constrangimento em receber ajuda,
admitir colaboração ou aceitar gentilezas por parte de uma pessoa cega. Tenha
sempre em mente que solidariedade humana deve ser praticada por todos e que
ninguém é tão incapaz que não tenha algo para dar.
·
Ao guiar a pessoa cega basta deixá-la segurar
seu braço que o movimento de seu corpo lhe dará a orientação de que ela
precisa. Nas passagens estreitas, tome a frente e deixe-a segui-lo, com a mão
em seu ombro. Nos ônibus e escadas basta pôr-lhe a mão no corrimão.
·
Quando passear com um cego que já estiver
acompanhado não o pegue pelo outro braço, nem lhe fique dando avisos. Deixe-o
ser orientado só por quem o estiver guiando.
·
Ao atravessar um cruzamento guie a pessoa cega
em L, que será de maior segurança para você e para ela. Cruzamento em diagonal
pode fazê-la perder a orientação.
·
Para indicar a entrada de um carro, faça a
pessoa cega tocar com a mão na porta aberta do carro e com a outra mão no
batente superior da porta. Avise-o se tem assento na dianteira, em caso de
táxi.
·
Ao bater a porta do automóvel, onde haja uma
pessoa cega, certifique-se primeiro de que não vai prender-lhe
os dedos. Estes são sua maior riqueza.
·
Se você encontrar uma pessoa cega tentando
fazer compras sozinha em uma loja ou supermercado,
ofereça-se para ajudá-la. Para ela é muito difícil saber a exata localização
dos produtos, assim como escolher marcas e preços.
·
Não “siga” o deficiente visual, pois ele poderá
perceber sua presença, perturbando-se e desorientando-se. Oriente sempre que
for necessário.
·
O deficiente visual, geralmente, sabe onde é o
terminal de seu ônibus. Quando perguntar por determinada linha é para
certificar-se em um ponto de ônibus onde passam várias linhas o deficiente
visual necessita de seu auxilio para identificar o ônibus que deseja apanhar.
Se passar seu ônibus onde passa só uma linha, o deficiente visual o
identificará pelo ruído do motor, abertura de portas, movimento de pessoas
subindo e descendo, necessitando sua ajuda apenas para localizar a porta. Em
trajetos retos, sem mudança do solo, o cego não pode adivinhar o ponto onde
deverá descer e precisará da sua colaboração. Em trajetos sinuosos ou que
modificam o solo ele faz seu esquema mental e desce em seu ponto, sem precisar
de auxilio. Quando você for descer de um ônibus e perceber que uma pessoa cega
vai descer no mesmo ponto ofereça sua ajuda. Ela necessitara de sua ajuda para
atravessar a rua ou informações sobre algum ponto de referência.
·
Ajude a pessoa cega que pretende subir num
ônibus colocando sua mão na alça externa vertical e ela subirá sozinha, sem
necessidade de ser empurrada ou levantada.
·
Dentro do ônibus não obrigue a sentar-se,
deixando à sua escolha. Apenas informe-o onde há lugar colocando sua mão no assento
ou no encosto caso ele deseje sentar-se.
·
Constituem grande perigo para os deficientes
visuais os obstáculos existentes nas calçadas tais como lixeiras, carros,
motos, andaimes, venezianas abertas para fora, jardineiras, árvores cujos
troncos atravessam a calçada, tampas de esgotos abertas, buracos, escadas, etc.
4. No trabalho
·
Em função adequada e compatível, o deficiente
visual produzirá igual ou mais que as pessoas de visão normal, pois seu
potencial de concentração é bem mais utilizado.
·
Ao ingressar na empresa o deficiente visual,
como qualquer outro funcionário deve ser apresentado a todos os demais colegas,
chefias e ser orientado quanto à área física (distribuição das salas, máquinas,
banheiros, refeitório, outros).
·
Todo cidadão tem direitos e deveres iguais
frente à sociedade. Dessa forma o deficiente visual deve desempenhar, na
íntegra, seu papel enquanto trabalhador cumprindo seus deveres, quanto à
pontualidade, assiduidade, responsabilidade, relações humanas, etc.
·
Se o deficiente visual não corresponder ao que
a Em presa espera, não generalize os aspectos negativos a todos os deficientes
visuais, lembre-se que cada pessoa tem características próprias.
·
Pelo fato de ter-se tornado deficiente visual o
trabalhador ou funcionário não deve ser estimulado a buscar sua aposentadoria,
mas a reabilitar-se, podendo continuar na empresa ou habilitar-se em outras
funções e outros cargos. Alguma instituição tem como objetivo a reabilitação e
reintegração, do deficiente no trabalho, bastando para tanto, contatá-las.
5. Na Escola:
·
Criança com olhos irritados
que esfrega as mãos neles, aproxima muito pra ler ou escrever,
manifesta dores de cabeça, tonturas, sensibilidade excessiva à luz, visão
confusa, deve ser encaminhada a um oftalmologista.
·
Todo deficiente visual, por amparo legal, pode
freqüentar escola da rede regular de ensino (público ou particular).
·
Se a criança enxerga pouco deverá estar na
primeira fila, no meio da sala ou com distância suficiente para ler o que está
escrito no quadro, fale o que escrever nele.
·
A incidência de reflexo solar e, ou luz artificial no quadro negro, devem ser evitadas.
·
Trate a criança deficiente visual normalmente,
sem demonstrar sentimentos de rejeição, subestimação ou superproteção.
·
Todos podem participar de aulas de Educação
Física e Educação Artística. Use o próprio corpo do deficiente visual para
orientá-lo.
·
Trabalhos de pesquisa em livros impressos em
tinta podem ser feitos em conjunto com colegas de visão normal.
Conclusão
Por falta de conhecimentos, muitos têm dificuldades no
relacionamento com pessoas cegas. Desejam ajudar, mas não sabem como fazê-lo.
Bem intencionados, muitos querem ajudar demais e com isto criam dificuldades e
sérios embaraços aos cegos. Esperamos que as sugestões ou “dicas” enumeradas anteriormente
possam orientá-lo a relacionar-se com a pessoa deficiente da visão.
“Se a metade do dinheiro hoje gasto em curar a cegueira
fosse usado em preveni-la, a sociedade ganharia em termos de economia, sem
mencionar condições de felicidade para a humanidade.”
“Que toda criança cega tenha oportunidade de receber
educação, e todo adulto cego uma oportunidade para treinamento e trabalho
útil.”
BIBLIOGRAFIA
MINISTPERIO DA AÇÃO
SOCIAL. Como você deve comporta-se diante de uma pessoa que... Brasília. CORDE. 1994.
CUTSFORTH, T. O cego na escola e na sociedade.
Campanha Nacional de Educação de Cegos. Brasília, 1969.
MASINI, Elsie
S. O Perceber e o relacionar-se do
deficiente visual. Brasília. Ministério da Justiça. CORDE., 1994.
NETO, João Lucas. A deficiência visual e você. Porto Alegre,1988.