Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)

    Nasceu em Itaboraí (RJ). Diplomou-se em medicina, mas nunca exerceu a profissão. Foi professor do colégio Pedro II, a instituição de ensino mais conceituada daquela época. Exerceu duas vezes o cargo de Deputado, foi também poeta, jornalista, historiógrafo, além de professor e escritor de livros didáticos. Morreu no Rio de Janeiro, em 1882.

    Obra:

    Romance: A Moreninha (1844); O Moço Loiro (1845); Os dois amores (1848).

    Teatro: O Fantasma branco (1856); O primo da Califórnia (1858)

   

A Moreninha

    É do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 18444, o trecho a seguir. O enredo é simples: três estudantes de Medicina - Augusto, Felipe e Leopoldo - passam o feriado na casa da avó de Felipe, numa ilha. Augusto, que se considerava muito inconstante no terreno amoroso, faz uma aposta: se ficasse apaixonado por uma mulher por mais de quinze dias, escreveria um romance cotando a história desta paixão. Conhece Carolina (a moreninha) por quem se apaixona. O único obstáculo à união dos dois é uma promessa de fidelidade feita por Augusto a uma menina que conhecera tempos atrás e cujo paradeiro e identidade ignora. No final, ocorre a coincidência que resolve o conflito: a tal menina era a própria Moreninha.

    NO trecho, selecionado no final do romance, ocorre o reencontro de Augusto com a Moreninha, já apaixonados, mas sem se revelarem um para o outro. A ausência de Augusto na ilha, por um fim de semana, atormentava a jovem.

A Moreninha

    D. Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados, porém, já menos ciumenta e despeitada; a boa avó livrou-a destes tormentos. Na hora do chá, fazendo com habilidade e destreza cair a conversação sobre o estudante amado, dizendo:

    - Aquele interessante moço, Carolina, parece pagar-nos bem a amizade que lhe temos, não entendes assim?...

    - Minha avó... eu não sei.

    - Dize sempre, pensarás acaso de maneira adversa?...

A menina hesitou um instante e depois respondeu:

    - Se ele pagasse bem, teria vindo no domingo.

    - Eis a injustiça, Carolina. Desde sábado à noite que Augusto está na cama, prostrado por uma enfermidade cruel.

    - Doente?! exclamou a linda Moreninha, extremamente comovida. Doente?... Em perigo?...

    - Graças a Deus, há dois dias ficou livre dele; hoje já pôde chegar à janela, assim me mandou dizer Felipe.

    - Oh! pobre moço!...se não fosse isso, teria vindo ver-nos!...

    E, pois, todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.

    No dia seguinte, ao amanhecer, a amorosa menina despertou, e buscando o toucador, há uma semana esquecido, dividiu seus cabelos nas duas costumadas belas tranças, que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas, vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo.

    - Eu me alinhei, pensava ela, porque enfim... hoje é domingo e talvez... como ontem já pôde chegar à janela, talvez consiga com algum esforço vir ver-me.

    E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar, ela principiou também a cantar sua balada:

    "Eu tenho quinze anos

     E sou morena linda".

    Mas, como por encantamento, no instante mesmo que ela dizia no seu canto:

    "Lá vem sua piroga

    Cortando leve os mares"

um lindo batelão apareceu de longe, voando com asa intumescida para a ilha.

     Com força e comoção desusadas bateu o coração de d. Carolina, que calou-se para só empregar no batel quem vinha atentas vistas, cheias de amor e de esperanças. Ah! era o batel suspirado.

   Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficiente, a bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto; sentado junto a um respeitável ancião, a quem não pode conhecer(...).

   (...)

   Augusto, com efeito, saltava neste momento para fora do batel, e depois deu a mão a seu pai para ajudá-lo a desembarcar; d.Carolina, que ainda não mostrava dar fé deles, prosseguiu seu canto até que quando dizia:

   "Quando há de ele correr

   Somente para me ver..."

sentiu que Augusto corria para ela. Prazer imenso inundava a alma da menina, para que possa ser descrito; como todos prevêem, a balada foi nesta estrofe interrompida e d. Carolina, aceitando o braço do estudante, desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele.

   Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias, guardaram silêncio e não tiveram uma palavra para pronunciar; tiveram só olhares para trocar e suspiros a verter. E para que mais?...

 

 

    Texto retirado do livro Língua e Literatura - Faraco e Moura.

    Maiores informações, contate-me: Danilo César

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